segunda-feira, 9 de maio de 2011

Entre as mãos

      Entre as mãos um

Corpo sólido
suspenso
perfeito em miniatura
ainda que derreta em fogo baixo
a resistência de uma

Pluma
caída
asa de pássaro negro
sobrevoou a vila
achando-a triste
não quis pousar
ainda que sua pluma
caída
pouse agora em minhas

Mãos
sem calos
sem pêlos
sem rugas
sem pintas
sem nada a oferecer
além de um pássaro morto
sustento seu corpo
perfeito em miniatura
dou-lhe abrigo e novo ninho
acaricio-lhe as plumas que
de baixa resistência
caem por entre os dedos
fico com seu corpo

Nu
depenado
mas perfeito em estrutura
os ossos da grossura
de um pedido
para que cessem os gritos
nos dias de chuva
pássaro que não pousa
tenho seu repouso

Entre as mãos

Meu Norte

Inseminou-me o céu azul
O vento flácido
O sopro frio que do Norte vem

Não desse Norte
De fogo árido
Não desse Norte
De fogo-fátuo
Areia e névoa
E fome e fome

Meu Norte é um outro
De azul beleza
Em sua frieza
Resido e penso
Profundo, inspiro
E encho o peito
De um gelo quente
Que faz sonhar

(Com o que sonho?
Com as aves migratórias num deserto imenso)

sábado, 30 de abril de 2011

Poça d'água

Agora visto meu polido escafandro
É de lama, sangue e pó seu polimento
Protegido, mergulho na poça d'água
Que me leva ao outro lado da tormenta

Eu nadei na tempestade a noite toda
Amanheço e ela termina: meu arco-íris
O visor do escafandro embaçado
Sete cores misturadas numa só

Mas nenhum pote-de-ouro me aguarda
Ou alguém o escondeu com muito esmero
Sob as murtas irrigadas pela chuva
Que afloram e o tempo descarregam

Pois então espero nova tempestade
Não conheço o caminho pela terra
Haverá um outro arco-íris no retorno?
Ou será que tudo apenas recomeça?

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Este meu claustro

Envolto em negras plumas
Carapaça e minh'alma acomodada
Tomou a forma de meu corpo
Fez-se molde

De mim agora surgem tantas cópias
Acopladas, minhas almas de mãos dadas
E eu alimentando um desengano

Quisera mais um ano ser criança
Rastelo em punho arando minha terra
E planto sementinhas
E plano sobre o ar
Castelos de areia, ninguém ousa derrubar

Mas não é de todo mal
Este meu
Claustro

De dentro uma janela estende o vale todo
Posso guardá-lo na maleta
Levá-lo, abri-lo ao céu
Estendo sobre a mesa o meu sonho de papel

terça-feira, 19 de abril de 2011

A Festa

terminarei uivando à lua, 
recostado sobre o braço de alguém,
girando em torno de meu próprio eixo ao mesmo tempo em que busco outros corpos,
pontos numa malha infinita, sobre os quais me apoiarei iniciando novas órbitas, 


corpos trapezistas no chão,

começo de algo


é assim que você costuma encerrar seus ciclos??!


não sei se já encerrei algum antes
algum ciclo como esse
os ciclos não são identicamente semelhantes

nem não contíguos
eles até se anulam e giram em órbitas e sentidos conflitantes


é, ciclos giram
não em elipse mas em círculos
mesmo


por que não em elipse?
minha teoria permite qualquer giro
permite até o não-giro
é a essa liberdade que você se referia?